A diminuição da privacidade e a volta ao passado da tecnologia

“Terminal”. Essa palavra indicava um sistema – composto por um monitor e um teclado, normalmente – usado para se conectar a um computador. Os computadores eram muito grandes e fazia sentido que o poder de processamento fosse compartilhado por várias pessoas por meio desses “terminais” que, sozinhos, não faziam nada sozinhos.

Nós estamos mais ou menos voltando para essa realidade – de outra forma, claro, mas o computador agora é a “nuvem”. Nossos computadores pessoais e celulares são mais poderosos do que nunca, mas ainda não se comparam aos milhares de servidores presentes na internet, a tal da “nuvem”, que é capaz de armazenar nossos arquivos, localizar dados, reconhecer palavras faladas ou escritas, resolver cálculos e muito mais.

Esse “retrocesso” claro, ocorre como avanço: estamos aproveitando os benefícios de escala (o processamento dos servidores é muito melhor e poupa a bateria dos nossos celulares) e permitindo que certos dispositivos façam coisas que eles não seriam capazes de fazer sozinhos. E, diferente dos terminais, que interagiram com computadores próximos, estamos nos beneficiando de máquinas que estão a até milhares de quilômetros de distância.

A Samsung, por exemplo, está trazendo ao Brasil, junto da Gamefly, um serviço de streaming de jogos para que seja possível jogar videogame pela TV. A imagem é formada (renderizada, no termo técnico) nos servidores do serviço e a TV – que não tem poder de processamento suficiente para rodar o jogo sozinha -, só precisa exibir as imagens que recebe.

Serviços de streaming de jogos até hoje não deram certo e não tenho intenção de dar palpite sobre o Gamefly. Só cito como exemplo de mais uma aplicação do modelo” terminal” nos dias de hoje.

O Windows 10, que coleta uma grande quantidade de nossas informações, inclusive informações de escrita, fala e pesquisa na web, é mais um exemplo disso. Parte dos recursos do Windows se realiza por meio da conexão com a internet e pelas relações que a Microsoft puder estabelecer entre os dados que forem chegando.

Não sou pessimista, mas, como usuário, fiquei pasmo com algumas das novidades do Windows 10. Como a Microsoft lança um recurso para compartilhar redes sem fio em que não é possível especificar exatamente quem terá acesso às redes compartilhadas?

Ora, é porque a inteligência está na nuvem. Não em você. Esse é o pressuposto básico de hoje. O seu computador pouco importa, porque os principais recursos existem na relação do sistema com a nuvem. O que é “pessoal” e “particular” está na nuvem do mesmo jeito, só acessível para pessoas diferentes: só você, ou você e quem mais você autoriza, por exemplo – mas não deixa de estar na nuvem, também.

E existe uma utilidade de “estar na nuvem” que supera seu interesse pessoal. Ao dar pouco controle sobre as escolhas de compartilhamento do Wi-Fi, a Microsoft oferece um serviço melhor para muita gente, que poderá chegar em qualquer local e, possivelmente conseguir um Wi-Fi de graça sem precisar pedir a senha. Talvez você não se importe em compartilhar, mas você também não faria esforço extra para compartilhar com essa pessoa. O “tanto faz” é um excelente combustível para a nuvem e, quanto mais a nuvem puder se aproveitar dele, melhor ela fica.

Antes da internet ser o que é hoje, as empresas desenvolvedoras de software gastavam muito dinheiro com experimentos ou buscando pessoas dispostas a compartilhar informações e participar de testes. Conta-se que o menu “iniciar”, que se chamava “Sistema”, recebeu esse nome quando as pessoas que a Microsoft convidava para usar o Windows 95 sentavam-se em frete ao computador sem saber o que fazer e, quando o botão passou a se chamar “iniciar”, todos iam direto a ele e, quase como mágica, era como se “soubessem” usar o computador. Mas isso custava muito dinheiro e era lento. Hoje, todos nós somos cobaias em potencial desse processo.

Esse fenômeno não é novo. É conhecido pelo nome geral de “big data”. Não adianta traduzir: o nome usado é esse, em inglês mesmo. E a ideia é que estamos lidando com uma grande quantidade de dados que necessita de métodos inovadores para serem processados e, depois, podem nos trazer ainda mais inovação. O detalhe é que todo dado pertence a alguém.

Hoje, nessas novas aplicações do “big data”, os dados são dos usuários do computador e, claro, especificamente os usuários conectados à internet que podem alimentar essas bases de dados gigantescas.

A análise comportamental para a distribuição de conteúdo começou a com a publicidade na web: cada site visitado era registrado para determinar o perfil do internauta: se era homem ou mulher, a faixa etária e quais os produtos o interessavam. A partir disso, os sistemas de publicidade decidiam qual anúncio exibir para melhorar o retorno.

Aplicações como reconhecimento de voz eram muito complexas e exigiam a transmissão de muitos dados — era inviável em conexões de internet mais lentas. Mas essas limitações morreram: a internet hoje é rápida o bastante e até sistemas que necessitam de resposta rápida, como os jogos, podem ser transmitidos.

É claro que um serviço de jogos por streaming sabe exatamente o que você joga e por quanto tempo. Isso não é o fim do mundo, mas ninguém sabia disso há alguns anos. Era preciso bater na porta ou telefonar e perguntar: “quanto tempo você joga videogame?”.

É como se todos nós tivéssemos um aparelho do Ibope em nossas casas. Perguntas não são mais necessárias, porque estamos constantemente transmitindo as respostas. Nossos sistemas são, como os antigos terminais, burros. O smartphone tem pouco de “smart”; o que interessa é como ele se conecta ao Facebook, sua capacidade de enviar e receber mensagens, de obter informações de localização, mapas – tudo sempre on-line.

Em poucas palavras, é o seguinte: o mundo que está se formando é um onde os computadores
entendem cada vez mais as pessoas, mas as pessoas não necessariamente entendem os computadores.

No que se refere à segurança, é muito difícil tomar decisões (“avaliar risco”) quando não se compreende os prós e contras de cada recurso e menos ainda quando parte das decisões futuras será tomada por sistemas sobre os quais temos pouco ou nenhum controle. Muitos especialistas dizem que o mercado (ou seja, as pessoas) pensam primeiro nas novidades e novos recursos. A segurança disso fica para depois.

Pode ser que nada aconteça, mas o problema é que até fazer a pergunta – será que isso vale a pena? – é considerado “paranoia” para alguns. Para mim, parece que Edward Snowden foi esquecido muito rápido.

Por ora, é um caminho sem volta.

Do mesmo Autor

Relacionados

Advertismentspot_img

Últimos Artigos

Mozilla diz que a Última Característica do Chrome 94 permite a Vigilância

Mozilla diz que a Última Característica do Chrome 94 permite a Vigilância: O cromo 94 caiu oficialmente. Como sempre acontece com uma nova versão do...

O WordPress usa cookies? LGPD

O WordPress usa cookies? Cookies são pequenos arquivos de texto que são armazenados em um dispositivo do usuário quando ele visita um site. Eles...

LGPD: Parar com as Ligações Indesejadas de Telemarketing

LGPD: Parar com as Ligações Indesejadas de Telemarketing: Nova legislação obriga que empresas justifiquem como dados foram obtidos e qual o uso das informações...

Quer se manter atualizado com as últimas notícias?

Gostaríamos muito de ouvir de você! Por favor, preencha seus dados e nós nos manteremos em contato. É muito simples!